PROENÇA-A-VELHA
Evolução Histórica e Administrativa Até 1218 pertenceu a Idanha-a-Velha, a antiga Egitânia. 1218 - Em Abril de 1218 recebe foral de D. Pedro Alvites, mestre da Ordem do Templo, em carta concedida com beneplácito de D. Afonso II e D. Urraca.
30
Mar 10

 

 

 

A Gadanha                                       

 

Sabe o que é? Eu explico

 

Na minha aldeia, terra beirã onde nasci, dava-se este nome a dois utensílios completamente diferentes um do outro.

E se entre eles não havia qualquer semelhança estrutural, a verdade é que no sentido prático do respectivo uso então as diferenças eram de um antagonismo abismal.

Se não vejamos:

Dava-se o nome de gadanha ao utensílio com que se retirava a sopa da terrina, panela ou tacho e que é conhecido pelo nome mais corrente de concha.

A outra gadanha é um utensílio usado na agricultura e que serve para se cortarem os pastos ou fenos que, depois de devidamente guardados, vão ajudar na alimentação do gado durante o Inverno e não só.

Mas dirão os leitores que me estão a ler, qual o interesse que isto tem para servir de objecto fundamental para a criação deste post!

A minha explicação só se deve ao facto de eu pretender, sempre que possível, descrever aqui passagens da minha juventude, com verdade e realismo e ao mesmo tempo serem documentos que me fazem reviver acontecimentos em que fui figura central.

De facto o motivo que me levou a escrever este post foi o facto de no dia 28 do corrente mês ter ido assistir a uma exibição do

RANCHO FOLCLÓRICO E ETNOGRÁFICO DA CASA DO CONCELHO DE CINFÃES

no colégio dos Maristas em Benfica, Lisboa, a convite de uma nossa conterrânea que naquele Rancho actua juntamente com o seu esposo.

O seu nome é São e podem visitá-la em http://soumaiseu.blogs.sapo.pt/.

Pois bem, a determinada altura uma representante do Grupo Folclórico que, além dos instrumentos musicais, transportam também diversos utensílios que fazem relembrar aos mais idosos e memorizar aos mais novos, algumas actividades rurais da região de Traz-os-Montes e Alto-douro.

Entre estes utensílios vinha a “minha amiga gadanha” que me fez recuar talvez uns cinquenta e quatro anos.

Devia eu ter mais ou menos catorze anos e andava na altura a trabalhar para o Marquês num local chamado, se não me engano, Chão do Lameiro e, entre outras coisas que eu tinha que fazer, tinha também a incumbência de, de xis em xis de tempo ir servir água aos homens que andavam a gadanhar os fenos e restolhos nessa zona, para beberem e também deitar água no pequeno chifre que cada um trazia preso à cintura, o qual servia para molharem a pedra com que afiavam a gadanha para melhor cortar o feno.

Eram diversos os homens que andavam nessa actividade e que eram “mandados” pelo capataz que neste caso era um nosso conterrâneo de nome António Pereira, pessoa nada simpática para com aqueles que chefiava e que morava junto ao Chafariz Novo, junto à casa do senhor Messias, carpinteiro de profissão, isto se não me engano.

Este nosso conterrâneo, António Pereira, não engraçava nada comigo e talvez por eu ser um pouco reguila, dava-lhe para embirrar por tudo e por nada. Eu claro não gostava nada da forma destemperada com que ele me tratava e ia pensando como havia de lhe dar uma “bofetada de luva branca”, mas de forma a que ele não ficasse com os trunfos todos. E assim pus o meu plano em marcha.

Certo dia, após ter servido a água aos “gadanheiros” e depois de ter levado mais umas “picadelas” do capataz, por ter demorado mais do que devia, segundo ele, dei o meu “grito do epiranga”, dizendo: - “Alguém que mais água nos cornos”? (claro que por malandrice troquei o termo chifre por cornos). O capataz atacou-me logo dizendo que eu estava a dizer que eles tinham cornos, ao que eu retorqui dizendo que o que eles traziam à cintura para molhar a pedra de afiar eram efectivamente cornos e que por isso eu só estava a perguntar se havia alguém que precisava de mais água nos cornos.

É evidente que o capataz viu a minha “esperteza” e por isso, além das queixinhas que fez ao meu saudoso e querido pai, nada mais pode fazer.

Isto porque cornos eram mesmo cornos, ou não seriam??.

A verdade porém, é que isto teve repercussão na terra e em nada abonatória para a minha pessoa.

E foi de tal forma que, quando o ano passado estive em Proença, ainda fui interpelado por conterrâneos que me perguntavam: - Ó Chico ainda te lembras daquela de quereres deitar água nos cornos dos gadanheiros?

..............................................

Velhos e bons tempos que relembro com imensa saudade.

 

FAfonso

publicado por AALADOSNAMORADOS às 15:47
04
Mar 10

 

PROENÇA-A-VELHA

 

O Senhor do Calvário

O ARRAIAL E AS GENTES

 

Do que foi, nada existe hoje.

O alpendre da Capela foi melhorado. Já não se vêem as telhas nem o varão de ferro que ajudava manter as vigas e onde me pendurei muitas vezes quando aos domingos, juntamente com jovens da mesma idade, rapazes e raparigas, ali nos deslocávamos para passar umas horas pelas tardes de verão.

Hoje está tudo mais bonito e mais moderno.

Os terrenos adjacentes à Capela eram bastante irregulares e a única coisa que se destacava era o Coreto onde se instalava a Filarmónica para abrilhantar o arraial com as suas músicas.

Era na verdade uma verdadeira festa. Todos se conheciam e todos se divertiam à sua maneira.

Havia uma bancada a que se dava o nome de "Ramo" onde se vendiam em especial, bolos e também algumas "rifas" e bebidas.

Aos mais jovens o que mais interessava era o "bailarico". Em contra-partida, os mais idosos agrupavam-se junto à bancada do "Ramo" e ali conversavam e bebiam uns "copitos".

Este local, o Senhor do Calvário, era também um destino muito frequentado pelos mais jovens, rapazes e raparigas, que ali se deslocavam e ali passavam várias horas, ou com as namoradas ou procurando arranjar namorada.

Era um tempo em que havia muita juventude nesta nossa Proença.

Não esquecer que por esta altura, década de cinquenta, haviam em Proença e em pleno funcionamento, três escolas primárias. Uma junto à Praça, outra na Capela de Santo António e uma terceira nas traseiras no primeiro andar, do Edifício da Igreja da Misericórdia.

Proença era na realidade uma Aldeia populosa e com muita vida.

Havia, que eu me recorde, cinco Sapateiros, seis tabernas, quatro barbeiros, quatro mercearias, diversos alfaiates, modistas, dois talhos e diversas outras actividades bem demonstrativas da actividade social que Proença-a-Velha possuía.

Do que acabo de referir, hoje não existe absolutamente NADA.

A pouca população que ali reside tem que se deslocar ou à Idanha-a-Nova ou um Castelo Branco para adquirir as coisas mais simples de que necessita para viver.

É verdadeiramente uma tristeza verificarmos o estado a que chegou uma terra onde há três ou quatro dezenas de anos tanta vida palpitava.

E mesmo para que esta pouca vida que tem exista, a mesma deve-se a duas ou três dezenas de habitantes que, com verdadeiro amor à terra, vão lutando para que a chama que iluminou os seus antepassados não se extinga.

Hoje tudo é diferente.

A Esplanada foi aplanada; há instalações sanitárias condignas e um bar local para servir os populares que ali se deslocam nos dias de festa.

Só falta a população residente.

De salientar em especial dois proencenses: -Francisco José Ribeiro da Silva – Presidente da Junta de Freguesia e João Adolfo Ramos Geraldes, Presidente da Assembleia de Freguesia.

Ao assistirmos a uma quadra festiva naquele recinto, constatamos que a grande maioria das pessoas não são proencenses e que por tal facto não se conhecem.

Todavia é minha convicção que, se as políticas seguidas pelos nossos governantes não for em alteradas, o que dificilmente me leva a acreditar, nem o esforço guerreiro destas gentes evitará o total abandono das terras da maioria do interior deste nosso querido Portugal.

 

 

FAfonso

 

publicado por AALADOSNAMORADOS às 15:27
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